Capítulo 1 – Dar um título
Christian parou e olhou ao redor.
Não podia estar pior. – pensou ele, espremido em sua poltrona por uma senhora obesa e uma mãe com uma garotinha chorona no colo, que a todo momento tentava esfregar seu pirulito em seu recém comprado suéter da Diesel. – Ótimo. Classe econômica.
Christian ouviu uma voz familiar, virou-se para trás e viu o seu amigo, Willian, cantando a aeromoça. Não posso acreditar! Até a aeromoça?!
- Nossa, acho que a gente passou muito perto do paraíso, por que entrou um anjo no avião. – Disse ele abrindo um sorrisinho maroto. A aeromoça olhou-o com indiferença e perguntou:
- Deseja alguma coisa, senhor?
Willian parou, pensou, olhou em volta, fez cara de quem estava prestes a responder um sim e disse relutante:
- Não. – Respondeu com um sorriso debochado.
Enquanto isso, a única garota do grupo de amigos conferia o endereço de seu novo lar na Califórnia, pensando na decisão que haviam tomado há algum tempo atrás. Tinham alguma experiência com o inglês e muita vontade de morar fora.
Julieta distraiu-se de seus pensamentos ao ouvir a porta do banheiro se fechar, e logo Nicholas, o último dos quatro amigos sentou-se ao seu lado, soltando um suspiro cansado.
Sentindo o perfume de Nicholas, Julieta lembrou-se de como o amigo vinha sendo legal com ela.
- Não podemos esquecer de agendar nossas entrevistas na universidade e São Francisco essa semana. – Lembrou ele virando-se para ela. O olhar dos dois se encontrou por um segundo, mas logo Nicholas desviou, distraído, colocando um fone no ouvido, mas Julieta continuou a observa-lo por mais alguns instantes.
Sentado na primeira fileira, Christian tirou seus óculos e os colocou contra a luz, vendo se estavam sujos. Indiferente, começou a limpá-los quando uma aeromoça passou por ele e abriu a cortina da primeira classe para passar, deixando-a entreaberta. Curioso, Christian inclinou a cabeça para espiar, e desanimado, percebeu o quanto gostaria de estar ali, esparramado naquela aconchegante poltrona e bebendo licor. Mas voltou a realidade quando ouviu o ronco da senhora gorda ao seu lado. Teria que agüenta-la por mais algum tempo.
Haviam decolado do aeroporto Internacional de Congonhas, em São Paulo, tarde da noite, pois com o péssimo tempo o vôo acabou atrasando. Dez horas da noite deixaram o Brasil, e pelo fuso horário, chegariam nos Estados Unidos por volta das cinco horas da tarde.
A burocracia para tirarem o visto de permanência no país os aborreceu, mas no final das contas, conseguiram o chamado Greencard, pois os motivos que os levavam aos Estados Unidos eram os estudos.
Depois de uma viagem exaustiva de avião, pousaram no Aeroporto Internacional de São Francisco, conhecido mundialmente por ser um dos mais belos. Tiverem alguns pequenos problemas com a bagagem, mas que logo foram resolvidos. A corrida de táxi foi prazerosa, pois foram apreciando as belezas que a cidade tinha a oferecer, sendo um ponto turístico visitado por milhões de pessoas todos os anos.
Perdendo apenas para Nova Iorque, São Francisco é a cidade mais densamente povoada dos Estados Unidos. Situa-se no Norte do Estado da Califórnia, às margens do Oceano Pacífico e da Bahia de São Francisco. É cercada de água em três lados e apenas presa ao continente pela parte sul, o que a torna uma península. Por conta disso, seu clima é ameno o ano inteiro, com verões relativamente frios e invernos relativamente quentes.
Christian não perdia tempo em tirar fotos, o que mais chamava sua atenção na cidade era o apoio oferecido aos homossexuais, o que achou peculiar, pois no Brasil havia muito preconceito, mesmo que discreto e muitas vezes até escondido pelo povo.
Quando o táxi os deixou em seus destinos, viram que a rua em que morariam era comprida e à beira do mar californiano, loteada por casas simples. No final da rua, havia um campo com capim alto, provavelmente um campo próprio para receber trailers, pois havia alguns deles espalhados pela área. Mas o veículo que mais chamava a atenção era o próximo ao asfalto, pois era o mais velho e abandonado de todos.
Christian olhou torto para o trailer e fez um comentário desdenhoso.
- Gente, que pocilga...
- Qual é mesmo o número da casa? – Perguntou Nicholas olhando em volta.
- 1.039. – Respondeu Julieta.
Os quatro andaram ao longo da rua mas não acharam o número. Sentaram-se em uma mureta, imaginando se o endereço que tinham estava certo.
Distraído, Willian fixou seu olhar no trailer, e depois de alguns segundos, levantou-se subitamente e andou até ele, encarando o número 1.036. Um a um, seus amigos foram se aproximando e parando ao seu lado, também fitando os números.
Confuso e não querendo acreditar, Christian disse em uma voz sufocada:
- Não, não, por favor, não... É 1.039, e não 1.036...
Willian o olhou demoradamente e andou até a porta do trailer, virando a plaquinha de número nove, que até então estava de cabeça para baixo.
- Bem-vindo à pocilga. – Disse ele.
Capítulo 2 – Dar um título
Cansada, Julieta sentou-se na sarjeta e colocou o rosto entre as mãos, chorando. Os rapazes olharam-na e acordaram de seu curto transe, percebendo o quanto a situação era ruim, então, começaram a discutir.
- De quem foi a idéia de comprar essa joça pela Internet?! – Perguntou Nicholas irritado.
- Minha é que não foi! Eu achei que fossemos morar em uma quitinete! – Respondeu Willian chutando com vontade uma pedra.
- E até parece que eu iria pagar para morar em um lugar desses, nem de graça! – Gritou Christian com as mãos na cintura.
Não agüentando mais, Julieta gritou com uma voz chorosa.
- Fui eu! Fui eu! Sabem que fui eu! – Julieta desabou a chorar. – Desculpa, eu sou uma tola mesmo! Fui muito ingênua, na foto era diferente, era uma linda quitinete e tinha até um tapete na porta escrito Welcome! Se eu soubesse que era um trailer velho, nunca teria comprado!
Os três rapazes pararam a discussão e Christian olhou-a de um modo protetor, sentando-se ao lado dela. E quando Nicholas e Willian pensaram que ele iria consolá-la, Christian encostou a cabeça no ombro de Julieta e também começou a chorar.
- Aí meu Deus... – Disse Willian inconformado com tal cena.
Nicholas sentou-se ao lado da amiga e passou o braço por seus ombros.
- Você não tinha como saber, Juli... Foi enganada. – Disse ele tentando acalmá-la. – Nós vamos dar um jeito, não sei como. – Disse forçando um pequeno sorriso. - Mas vamos.
Depois de alguns minutos com todos em silêncio, Willian olhou determinado para o trailer.
- E aí? Alguém quer ver como estão as coisas lá dentro?
Os três se levantaram e o acompanharam até a porta. Tentaram abrí-la, mas estava emperrada. Nicholas e Willian estavam prestes a dar uma forte ombrada quando Julieta berrou:
- O que estão fazendo!? Eu tenho a chave! Sou ingênua mas não sou burra! – Disse ela tirando de sua bolsa um pequeno chaveiro.
Depois de uma, duas, três tentativas com a chave, a porta só foi aberta com um tranco dos garotos, e a primeira impressão que tiveram foi de que o trailer estava dominado pelo mofo. Christian torceu o nariz.
Foram andando lentamente ao longo do veículo, extremamente chocados com as péssimas condições em que ele se encontrava. Julieta topou acidentalmente no sofá embutido, assustando duas baratas, que correram de debaixo do estofado para fora.
- Cruz credo! – Assustou-se Christian dando um pulo. Willian olhou impaciente para o teto, mas voltou a olhá-lo mais atentamente quando percebeu que nele crescia uma mancha escura.
- Maravilha, infiltração! – Disse ele apontando. A cada passo que davam no pequenino trailer, descobriam mais problemas.
Com uma certa hesitação, Nicholas aproximou-se do minúsculo banheiro. As paredes estavam sujas, o pequeno espelho rachado, a torneira da pia enferrujada e dela saia uma água escura e mal cheirosa. Tomando coragem, voltou-se para o vaso.
- Nossa... Quero dizer, caramba... Meu Deus...
Julieta aproximou-se para ver o que estava acontecendo, mas Nicholas a impediu.
- Melhor não. – Disse ele fechando a porta em seguida.
Enquanto isso, Christian explorava a apertada cozinha, que era no próprio corredor. Era formada apenas por um fogão de duas bocas, um frigobar e uma cuba de pia rachada. O único armário disponível para louças e mantimentos era um de duas portas que ficava a cima da pia.
Willian se apertou ao lado do amigo e o abriu para ver ser havia algo dentro, mas a porta lhe veio nas mãos e a única coisa que acharam lá dentro foram teias de aranhas.
- Ótimo, Will. Você destruiu o único armário que tínhamos. – Disse Christian impaciente. Os dois voltaram-se para o chamado de Julieta.
- Rapazes, Tenho uma boa e uma má notícia. – Gritou ela do quarto. - Vou dizer a boa primeiro: Temos duas beliches. Mas os quatro colchões estão úmidos e meio podres!
- Eu também tenho uma revelação. – Disse Nicholas. – Temos uma televisão de quatorze polegadas, mas a antena está quebrada. E temos um sofá que cabe todos nós, mas os estofados estão rasgados e são horríveis...
Depois que vasculharam um pouco mais o trailer e deram uma olhada em seus inúmeros defeitos, os quatro encaminharam-se exaustos para fora. A tarde já estava caindo, mas a brisa que o mar lançava para a costa era gostosa.
- Não podemos dormir neste lugar, o ideal seria passarmos a noite em um hotel e começarmos a arrumar o trailer amanhã. Alguém tem algum número de táxi? – Perguntou Julieta.
O silêncio foi constante.
- Ótimo. Será que algum dos nossos vizinhos pode nos ajudar? – Continuou ela olhando para as casas da rua, mas murchou quando as viu apagadas e desertas.
- Mas hotel... Não sei, nosso dinheiro está contado, não sabemos bem quanto é o custo de vida por aqui. – Disse Nicholas pensativo. – E não acho que algum vizinho irá ajudar um grupo de brasileiros totalmente desorientados.
Juntando o dinheiro dos quatro, tinham ao todo cinco mil dólares, o que imaginaram ser o suficiente para pelo menos três semanas, depois, teriam que se virar para acharem um emprego e começarem a vida para valer em São Francisco.
- Bom, onde nós vamos passar a noite, então? – Perguntou Willian fitando a orla da praia, onde nada mais era visto exceto por alguns siris, que corriam de um canto para outro na areia. Seu olhar foi correndo pela orla até parar em um posto de vigia. Ficou entusiasmado.
- Que lâmpada acessa é essa em cima da sua cabeça, Will? – Perguntou Nicholas achando graça.
Depois que todas as malas já haviam sido levadas para o posto, começaram a improvisar suas camas como podiam. O posto devia ter uns seis metros quadrados, era fechado e segurava bem o vento. Estava limpo e arejado.
- Hei, podemos morar aqui! – Disse Christian feliz. – É muito mais decente do que o trailer. Tudo bem que os salva-vidas não vão gostar muito mas...
- Cala a boca, Chris. – Disse Julieta. Os garotos riram.
Depois do longo dia, não demorou para os quatro dormirem, mas no entanto, Julieta acordava freqüentemente ao longo da noite. Estava entusiasmada e preocupada ao mesmo tempo. Sentou-se, pois sabia que não voltaria a dormir mais.
Como você pode, Julieta? Por um descuido seu, todos vão ser obrigados a ficarem naquele lixo de trailer. Não conseguiria tirar aquele peso da consciência tão facilmente.
Foi despertada dos pensamentos quando algo roçou em sua perna. Percebeu que eram os cabelos encaracolados de Nicholas. Sua cabeça havia pendido da mala que fazia de travesseiro e caído em sua perna. Sem dar importância, deixou o amigo usar sua perna como travesseiro e olhou ao redor. Vendo todos ali, dormindo juntos, pensou que por mais que estivesse insegura, no final das contas estava feliz, pois estavam todos juntos.
Capítulo 3 – Dar um título
Lista de coisas que precisamos providenciar:
- Desinfetante e detergente. (muito, muito!).
- Vassouras, pás, panos de chão e baldes.
- Martelo, pregos e chaves de fenda.
- Velas (não sabemos quando iremos ter energia!).
- Inseticidas.
- Cola de alta fixação
- fechadura nova para a porta da frente.
- Cuba para a pia da cozinha.
- Vermífugos e vacinas anti-tétano para todos.
- Manual da sobrevivência.
- Guia básico do trailer.
- Mantimentos. (o que inclui água potável).
- Pratos, talheres, panelas...
- Roupa de cama.
- Papel higiênico, sabonetes, creme dental...
- Gás para o fogão.
- Panos de prato e de mesa.
- Talco de chulé para o Will.
- Espelho para o banheiro.
- Antena para a televisão.
- Ventilador. e protetor solar..
- Aparador de grama.
- Tapete escrito Welcome.
- E olhem que eu escrevi só as coisas principais... Vai nos faltar um rádio, telas para as janelas, aspirador de pó, um computador para mantermos contato, uma caixa de correio, algum meio de transporte, regador para o jardim, uma campainha...
- Jú, chega. – Disse Chris perturbado. – Só para constar, estamos morando em um mini trailer e temos apenas cinco mil dólares, neste caso, teremos que rever nossas prioridades... Tapetinho de Welcome não é uma delas. – Continuou ele concentrado em limpar seu óculos.
- A moça está certa, Jú. Vamos ter que excluir algumas coisas da sua lista. – Disse Willian.
Christian concordou satisfeito, ignorando o apelido que o amigo lhe dera, pois já estava acostumado e sabia que não era por mal.
- Tudo bem vai. – Julieta riscou de sua lista o tapete, o aparador de grama, o ventilador, a antena de televisão e o espelho novo para o banheiro. – Vamos ter que ir ao mercado, mas é melhor dois de nós ficarmos aqui para começarmos a arrumar as coisas...
Christian puxou a lista de coisas da mão de Julieta e tomou partido.
- Quem vai no mercado comigo?
- É melhor que o Nick vá com você. Ele entende melhor de inglês. – Disse Julieta. – Eu e o Will ficaremos aqui.
Willian sorriu e lhe deu uma piscadela.
- Opa, hoje é o meu dia de sorte!
Julieta olhou impaciente para o amigo. Estava acostumada com as suas gracinhas, mas às vezes a tirava do sério.
- Will, o assunto é sério. O trailer está todo ferrado, vamos ter que fazer um par de coisas nele...
- OK, eu paro...
- Ótimo. Garotos, antes de vocês irem, nos ajudem a levar nossas malas para perto do trailer, assim poderemos ficar de olho nelas.
Depois que todas as malas já haviam sido levadas, Nicholas e Christian saíram sem destino pela rua, pois não tinham idéia de onde havia um super mercado por ali. Mas quando estavam dobrando a esquina, Julieta os alcançou e chamou Christian para ter uma conversa em particular. Estava constrangida.
- Ah... Chris, p-preciso de um favor seu... – Começou ela sem graça. Olhou de relance para Nicholas e viu que ele os observava, curioso. – Você, p-poderia comprar um... Um pacote de... De...
- Absorvente?
Julieta sorriu discreta.
- É, isso...
- Tudo bem, Jú. – Respondeu Christian rindo. Julieta agradeceu e voltou para o trailer. Os garotos continuaram seus caminhos.
- O que vocês estavam conversando em segredinho? – Perguntou Nicholas curioso.
- Assunto de moças. – Respondeu distraído.
Os dois andaram pelo bairro, mas a única coisa que acharam foi uma simples mercearia, que não tinha metade das coisas que eles precisavam.
Em busca de um mercado maior, pediram informação a um homem que passava, e este lhes disse que não havia mercados no bairro. Tiveram que andar muito até encontrarem um Wal- Mart. Chegando lá, Christian pegou um carrinho e se preparou para entrar no grande e iluminado mercado, que àquela hora, estava lotado. Já no primeiro corredor onde passaram, pegaram panos de chão, uma vassoura, um rodo e uma pá de lixo, o que já encheu metade do carrinho.
Uma senhora com cara de castor passou por eles e olhou torto para o carrinho.
-* O que foi? – perguntou Chris mal humorado. Ela ignorou a pergunta e deu as costas.
Os garotos voltaram-se para o corredor de shampoos e cremes. Nicholas vasculhou as inúmeras marcas e escolheu o galão econômico. Três litros de shampoo. Colocou-o o no ombro e levou-o para o carrinho. Chris teve um ataque.
- Não vou lavar o meu cabelo com isso! Não mesmo!
- Chris, agente não tem dinheiro.
- Mas olha só para isso, é a marca do mercado! E o cheiro!? Isso cheira a perfume barato! E é para cabelos ressecados, os meus são oleosos!
- Tá, tudo bem! Eu pego o de cabelos normais, não me importo se um é isso e se o outro é aquilo, é este que vamos levar ! – Disse Nicholas impaciente.
- Tá, tudo bem! Eu pego o de cabelos normais, não me importo se um é isso e se o outro é aquilo, é este que vamos levar ! – Disse Nicholas impaciente.
Christian ficou emburrado.
- Neste corredor nos falta... – Começou Nicholas dando o assunto como encerrado, conferindo a lista de coisas. – Papel higiênico, creme dental, o protetor solar... Acho que é isso. Ah, e o talco de chulé para o Will.
Depois que esses itens foram pegos por Christian, este foi até a estante de absorventes e jogou um pacote no carrinho. Nicholas olhou-o preocupado.
- Chris, põe isso de volta no lugar. – Disse aproximando-se.
- Mas por que?
- Eu aceito a sua escolha, mas não vou deixar você usar essas coisas. – Respondeu ele pondo o pacote no lugar. Christian voltou a por o pacote no carrinho, foi até o amigo e lhe pôs a mão no ombro.
- É para a Jú.
Nicholas não disse nada, apenas suspirou com um certo alívio.
Depois que já haviam pego todos os mantimentos que acharam essenciais, as roupas de cama e cozinha, foram atrás do inseticida, que também era um item importante da lista.
Buscaram as velas, a cola, os pratos e talheres, e por último, as panelas. O kit mais barato que encontraram. Nicholas foi atrás dos materiais para construção, e ficou grato por ter tudo naquele mercado, assim, não teriam que procurar um depósito.
Quando voltou para perto do carrinho, pegou Christian no flagra.
- O que pensa que está fazendo com todos esses cremes?!
- E eu... Eu trouxe só alguns do Brasil... Eles são importantes para...
Nicholas tirou os frascos de suas mãos e leu seus rótulos abismados.
- Hidratante, creme de cabelo, creme para os pés, gel...! Ficou louco?! Eu deveria ter vindo com a Julieta, nem ela pegaria tantas coisas assim!
Melancólico, voltou com os produtos para colocá-los no lugar.
O que mais acharam diferente no mercado americano era a quantidade de produtos enlatados nas prateleiras. O mais curioso que encontraram foram os feijões em lata, coisa que no Brasil era difícil de se ver. A variedade de frutas era pequena, e as que haviam eram caras. Ficaram estarrecidos com o preço das bananas.
No geral, o Wal-Mart norte-americano era parecido com o brasileiro, afinal, era uma franquia, mas não prestaram muita atenção em seus detalhes, pois estavam cansados demais para isso.
Ficaram cerca de vinte minutos esperando na fila, e mais de meia hora passando todas as compras. A conta total ficou em mil trezentos e oitenta dólares e vinte e dois cents. No final de tudo, estavam exaustos, mas ficaram mais ainda quando começaram a se perguntar como levariam as compras para o trailer.
Capítulo 4 – Dar um título
- Por que você foi correndo atrás deles? – Perguntou Willian curioso.
- Não é da sua conta.
- Nossa, como estamos agressivos esta manhã...
- Desculpa, Will. É que eu estou nervosa. Será que eles conseguirão comprar tudo? Achar um mercado? Se comunicar se precisarem...?
- Vão. – Respondeu distraído. – O Nick manja de inglês. E o que pode ter de tão difícil, são só compras...
- Sim, está certo. Vamos começar com essa arrumação de uma vez... – Disse Julieta com as mãos não cintura, olhando em volta.
Percebeu que o capim estava alto apenas em volta do trailer deles. Não havia nem ao menos uma trilha para se chegar, enquanto que nos outros, o mato estava aparado e havia até algumas flores no jardim.
- Que cretinos, eles aparam apenas o capim em volta dos seus trailers em vez de deixar tudo em ordem. – Disse Willian.
- Era o que eu estava pensando agora mesmo. – Concordou Julieta.
Deixando o assunto de lado, entraram no trailer e abriram todas as janelas para ventilar. O cheiro de mofo estava forte.
Algumas das janelas estavam emperradas, mas com a força dos dois, conseguiram abri-las. Pegaram todos os colchões do quarto e colocaram no teto para tomar sol. Ficaram felizes, pois pelo menos a escada estava em boas condições. Enquanto Julieta dava uma olhada na caixa d’água, Willian voltou para o trailer para procurar os documentos, pois sem eles, perderiam facilmente o trailer se algum policial os repreendesse. Mas não tinha idéia de onde começar a procurar.
Abriu todas as gavetas que existiam no veículo, mas não encontrou nada. Olhou no pequeno armário do quarto mas só o que achou foi meia dúzia de cabides vazios.
Olhou pelo chão e também nada de documentos.
Sentou-se desanimado no sofá embutido e ficou ouvindo sua barriga roncar, brincando com o anel que usava no polegar. Deixou-o cair e ajoelhou-se embaixo da mesa para apanhá-lo.
Sujou as mãos e as calças de poeira.
- Droga...
Pegou o anel, mas antes de se levantar, viu algo preso entre a parede e a madeira.
- Mas o que...?
Esgueirou-se mais ainda por de baixo da mesa e puxou os papeis, mas quando o fez, bateu a cabeça com força na mesa. Gritou.
- O que aconteceu, Will?! – Perguntou Julieta, que chegou correndo. – Você está bem?
- Aí, tá doendo. Ui... Legal... Esse é o maior galo da história, juro... – Choramingou ele levantando-se com os papeis na mão. – Nossa, preciso de um analgésico.
Julieta riu.
- Como homem é chorão.
- É, é por isso que são vocês que engravidam, e não nós. – Respondeu ele entregando-lhe o que havia encontrado. – Bati a cabeça para pegá-los, é bom que valham a pena.
Julieta os abriu e deu um pulo de alegria.
- Você é o cara, Willian. Achou os documentos!
- Gata, eu sou o cara e muito mais. – Disse ele dando-lhe uma piscadela marota. Julieta fingiu não ter visto e continuou a sorrir, fitando os documentos.
Os dois suspiraram de alívio.
- É, isso vai nos facilitar um bocado...
- Vai. – Concordou ele espreguiçando-se no sofá, mas Julieta o fez levantar. Desejava tirar os estofados dali, pois também precisavam tomar sol.
- Me ajude com estes estofados.
- Vamos queimá-los, são horríveis! – Disse ele fazendo manha para se levantar.
- Mesmo se formos queimá-los, você vai precisar se levantar, Willian.
- É né? – Perguntou rindo.
- Mas não vamos queimá-los, é a única coisa que teremos para sentar.
Juntos, puxaram os estofados e os colocaram para fora. Ficaram surpresos, pois embaixo das madeiras havia um grande espaço, como se fosse um baú. Encontraram duas cadeiras de praia lá dentro.
- Ótimo, agora podemos queimar o sofá. Qualquer coisa falamos que foi um acidente.
- Legal, essas cadeiras estão boas. Um pouco enferrujadas, mas boas. – Disse Julieta feliz, analisando-as. – Bom, até que as coisas não estão tão ruins, não é? – Perguntou esperançosa.
- Bom, uma coisa boa para cada dez ruins... Sim, até que estamos bem.
Julieta murchou. Os dois foram para fora e sentaram-se em cima dos estofados, estavam cansados.
- Hei, Jú, eu comeria um boi inteiro agora. Tô morrendo de fome. Será que eles vão demorar com a comida? E também estou com sede.
- Não tenho idéia, também estou com muita fome e sede. Mas acho que na minha mala deve ter umas balas, se você quiser... – Disse ela passando as costas da mão no rosto, estava suando.
Pelo que tudo indicava, o clima na Califórnia era sempre abafado daquele jeito, principalmente na região praiana. O mormaço típico a deixava tonta em alguns momentos, e o sol, brilhava como se nunca fosse embora. Willian levantou-se e trouxe a mala da amiga para perto. Julieta caçou as balas e as dividiu em dois.
Estava preocupada com Nicholas e Christian. Todos ali já eram bem grandinhos, no entanto, Julieta sempre ficava nervosa quando se tratava da segurança dos três rapazes. Conhecia-os bem, eram amigos desde os sete anos de idade, quando se conheceram no ensino fundamental.
Nunca se largavam, sempre foram muito próximos uns dos outros, tanto é que decidiram se mudar juntos para um país estranho. Mas como única garota do grupo, sentia-se na obrigação de ficar de olho neles, principalmente em Nicholas e Willian, que sempre foram mais desligados.
- Vou sair deste sol, estou passando mal. – Disse ela levantando-se. – Will, você não quer ir dar uma olhada nos canos que abastecem a caixa d’água? Não sabemos se estão em boas condições...
Willian praguejou algo sobre fome que ela não pode ouvir e levantou-se cambaleante, indo em direção aos canos. Estava concentrado os examinando quando uma voz desconhecida soou perto.
-* Bom dia, novo vizinho. Meu pai mandou eu vim lhe dar as boas vindas e ver se pode nos emprestar uma xícara de açúcar.
Willian estava chocado. O garoto de aproximadamente dez anos falou em um espanhol tão rápido e enrolado que ele não pode entender uma palavra sequer.
-* Vai ficar me olhando com essa cara de tonto? Ouviu o que eu disse? – Perguntou ele rindo gozador. E mais uma vez, Willian não entendeu uma palavra, mas sabia quando estavam rindo da cara dele.
- Hum... Hei, garoto, o que você quer? – Perguntou impaciente.
-* Não me apresentei, meu nome é Juanito. E você tem cara de paspalho... – Continuou o menino se divertindo. – Eu quero açúcar! Moramos naquele trailer logo ali. – Disse ele apontando. – Açúcar!
- Não entendo uma palavra do que diz!* Eu não entendo! – Disse Willian tentando gesticular com as mãos que não falava espanhol. Tinha uma noção de inglês, mas a língua espanhola ele de fato não conhecia.
-* Não me entende mas eu te entendo, paspalhão! Asno! – Juanito se aproveitou da ignorância do vizinho para rir mais ainda.
- Hei, sei que está rindo de mim. Pode vazar daqui moleque! Eu, eu não posso te ajudar, seja lá o que for. Anda, se manda!* Vai embora!
-* Que babaca! - O menino se afastou morrendo de rir, deixando Willian mais estressado do que já estava. Entrou irritado no trailer.
- Quer saber a nova, Julieta?! Temos uma família mexicana como vizinha, e um dos filhos é o capeta em pessoa! É a peste!
- Por que está dizendo isso? – Perguntou ela com a cabeça para fora do quarto.
- Por que ele ficou tirando uma comigo em espanhol!
- E você entende espanhol?
- Ah, eu, n não, não entendo, mas sei que ele estava me zuando. – Respondeu emburrado sentando-se em uma das cadeiras de praia. Ouviu Julieta rir do quarto. – Eu sei! Eu tenho certeza! Eu vi aquele sorriso maléfico!
- É só uma criança, Will. Você já tem dezoito anos, não se deixe levar pelas provocações dele. Se foram provocações mesmo... – Respondeu Julieta trazendo consigo mais três cadeiras de praia. – Olha só, eu as encontrei debaixo de uma das beliches, estão boas também...
- É claro que foram provocações! E não é só uma criança, crianças não riem daquele jeito... Daquele jeito diabólico.
- OK, esqueça o menino.
- O nome dele é Juanito.
- Que seja!
- Tá bem.
A manhã avançou, e quando olharam para o relógio, já passavam das duas da tarde. Já haviam feito tudo o que podiam para melhorar o trailer, o resto ficava por conta do material que os garotos estavam trazendo.
A fome e a sede os consumia cada vez mais. Julieta estava prestes a ir até os mexicanos pedir um pouco d’água, mas Willian a impediu.
- Não, o moleque vai mijar na água e te dar...
- Não fale besteiras, Willian.
- Não é besteira... – Disse ele com o olhar distante, mexendo na espuma do estofado em que estava sentado. – Hei, acho que vi algo no final da rua.
Julieta levantou a cabeça e visualizou duas figuras humanas se aproximando lentamente.
- São eles! – Disse ela animada dando um pulo do sofá. Willian saiu correndo.
Capítulo 5 – Dar um título
Nicholas empurrava o carrinho quase que se arrastando, e Christian, deitado em cima de todas as compras, vinha se abanando e praguejando. Havia sido uma proeza terem conseguido colocar todos a compras dentro de um único carrinho.
- Pare de reclamar, moça. Você está me devendo dez dólares, não pense que isso vai sair de graça. – Disse Nicholas irritado.
- Você não pode simplesmente carregar um amigo cansado? É pedir muito...?
- É, é pedir muito sim. Olhe lá, estão chegando. – Apontou ele para as duas figuras que vinham apressadas em direção a eles. Willian foi o primeiro a chegar.
- Comida, comida, comida, comida, comida! – Gritou ele feliz se jogando em cima de Nicholas, os dois foram para o chão.
- Sai de mim! – Gritou Nicholas tentando se esquivar dos beijos de Willian. – Willian!
- Eu não posso simplesmente ficar feliz por que meu amiguinho querido chegou com o que eu mais quero no momento? A comida?! – Perguntou ele alegre. Nicholas empurrou-o para o lado e levantou-se tonto. Willian agarrou seu pé. – Me diz que vocês compraram as minhas batatas, me diz Nick, eu só quero ouvir isso da sua boca...
- Velho, você fica insuportável quando tá com fome. Parece criança. – Disse Nicholas tentando soltar sua perna. – É, eu comprei as suas batatas, Will. Agora me solta, se não eu não vou poder pegar para você.
Willian soltou a perna do amigo e levantou-se, cheio de expectativa.
- Christian, olha o estado do Nick. Levanta desse carrinho, ele já deve estar bem pesado sem você deitado nele. – Brigou Julieta aproximando-se.
- Ele dá conta. – Protestou Christian levantando-se. – E não vai sair de graça não, eu vou ter que pagar.
- Onde estão minhas batatas? Vocês disseram que compraram, onde estão elas?! – Perguntou Willian exasperado fuçando nos pacotes.
- Pelo amor de Deus, alguém dá comida para ele. Eu não agüento mais, vou ficar doida! – Implorou Julieta. Nicholas tirou um saquinho colorido da parte debaixo de carrinho e lhe entregou, impaciente.
Chris tentou pegar, mas Willian não deu chance. Virou o saquinho inteiro direto na boca.
- Céus, que voraz. – Reclamou Christian.
- Não adianta, Chris. Ninguém mexe nas batatas dele, principalmente nesses momentos de fome extrema. – Disse Julieta indiferente, ajudando a empurrar o carrinho. Já estavam quase no trailer. – Hei, vocês roubaram este carrinho do super mercado?! Como conseguiram?!
Christian sorriu maroto.
- Minha educação não permite dizer. Mas ele com certeza não foi roubado. – Respondeu cansado sentando-se na calçada. Tirou seus óculos e começou a limpá-los.
- Pára de graça, Chris. – Disse Nicholas entrando no trailer junto com Willian.
- Como conseguiram, afinal?! – Insistiu Julieta.
- É constrangedor falar, Jú... Não sei se o Nick deixa eu te contar...
- Ué! Mas eu quero saber, por que se vocês roubaram, vão voltar lá agora mesmo para...
- Não roubamos. – Respondeu Christian levantando-se e batendo na calça para tirar a sujeira. – É que a mocinha do mercado que cuidava dos carrinhos foi com a cara do Nick, então... Sabe como é né, eles foram lá no banheiro, trocaram uma idéia... Depois disso o Nicholas voltou todo sorrisos e disse que poderíamos levar o carrinho. – Explicou Christian indiferente entrando no trailer, deixando uma Julieta perplexa do lado de fora.
- T trocaram uma idéia...?
- Seja lá o que ele tenha te falado, é mentira. – Disse Nicholas puxando-a para dentro. – Vamos, venha comer. Você também deve estar com fome...
- Mas a parte que a mocinha foi com a cara dele era verdade. – Explicou Christian rindo. – Eu nunca vi alguém representar tão bem! Foi a melhor cara de cachorro sem dono que eu já vi alguém fazer. Só faltava o Nick dizer que tinha uma esposa e uma penca de filhos para sustentar! - Ainda bem que eu não precisei apelar assim... – Disse ele. – Mas não teve jeito, tive que dar meu número de telefone para ela...
- Mas você nem tem um telefone! – Disse Julieta incrédula.
Willian não agüentava de tanto rir.
- Exatamente. – Respondeu Nicholas abrindo-lhe um sorriso. Julieta não pode deixar de sorrir de volta. – Que esperteza, que esperteza a minha.
- Adorei, cara! Bate aí! – Disse Willian apertando a mão do amigo.
Depois que levaram os estofados de volta para dentro para terem onde sentar e comer, arrumaram a mesa com a toalha recém comprada e desempacotaram o que iriam precisar.
Enquanto comiam, contavam uns aos outros tudo o que tinham feito. Christian explicou que depois que saíram do mercado, passaram por um pequeno deposito de material para construção e aproveitaram para comprar o que não haviam achado no mercado.
- Só não achamos o gás para o fogão... – Disse Nicholas engolindo um pedaço inteiro de pão. – E mesmo se tivéssemos achado, não teríamos condições para trazer. Viram o estado do carrinho?
De fato, o carrinho estava transbordando de produtos, e Christian ainda deu a desculpa de que se deitou em cima só para não deixar nada cair.
- Você deve ter amassado um monte de coisas, não? – Perguntou Julieta concentrada em abrir o pote de geleia.
- Não, as coisas mais frágeis nós colocamos dentro da cuba de pia, que está na parte debaixo do carrinho. As batatas do Will, os pães, os ovos, as velas e o que era de vidro que poderia ser quebrado. – Explicou Christian.
- Hum, então está certo... – Respondeu ela ainda brigando com o pote de geleia.
- E este trailer? O que fizeram nele? Ele parece um pouco melhor... – Disse Nicholas.
- Pelo menos ele cheira um pouco melhor. – Disse Christian dando uma fungada no ambiente.
Julieta e Willian explicaram tudo o que tinham feito. E Willian contou para os dois sobre os novos vizinhos mexicanos.
- Nossa, é impressão minha ou o gostosão aí tá intimidado por aquele garotinho? – Perguntou Nicholas rindo.
- Não to intimidado! Só falei que acho que teremos problemas com ele.
- Eu o vi de longe e ele me pareceu uma gracinha. – Disse Julieta começando a ficar irritada com a geleia.
- Você acha que todos são umas gracinhas, Jú. Lembra daquele garoto de rua que parou você? Vendendo bala? Você abriu a carteira para pegar dinheiro e o moleque te roubou a carteira com bolsa e tudo! – Disse Willian irritado.
- Ele não tinha culpa se estava morrendo de fome e não tinha um centavo sequer... E vocês conseguiram pegar a bolsa de volta...
- Depois de correr muito. Nossa, o garoto era ligeiro. – Disse Nicholas, que pegou o pote de geleia das mãos de Julieta e o abriu, entregando-lhe distraído, ainda fitando uma faca de manteiga.
- Não estou lembrado deste dia. Onde eu estava? – Perguntou Christian pensativo.
- Foi no dia que nós fomos ao cinema e você ficou em casa, disse que estava fazendo hidratação no cabelo ou sei lá o que... – Respondeu Willian rindo debochado.
Depois que já estavam satisfeitos, desempacotaram todas as compras e deixaram-nas em cima da mesa até que pudessem limpar os armários. Tinham muitas coisas para guardar e poucos lugares para guardá-las. Decidiram que começariam a arrumar o trailer naquele mesmo dia, mas depois que descansassem um pouco.
Levaram quatro cadeiras de praia para o teto do trailer e sentaram-se nelas, aproveitando a brisa californiana que chegava até eles. Havia sido a primeira vez desde que chegaram em São Francisco que conseguiram relaxar.
- Isso aqui está ótimo, mas não podemos esquecer que viemos para cá para estudar, e não só para curtir... – Disse Nicholas se espreguiçando.
- Você só pensa em estudar, Nick! Sempre foi assim, vê se relaxa um pouco! Sabe o que você precisa, colega? De uma linda californiana te fazendo uma massagem! – Disse Willian olhando sonhador para o mar. – Não é não, Jú? – Perguntou ele virando-se para a amiga, passando o braço por seus ombros.
Julieta ficou em silêncio.
- Ainda bem que concordamos.
- E você só pensa em garotas. – Disse Christian inconformado.
- E você em garotos! – Respondeu Willian triunfante. – Qual é pessoal, somos jovens. Não precisamos de responsabilidades, e sim de diversão! Nick, a garota do mercado era bonita?
- Era, mas não é o seu tipo...
- E por quê? Todas são do meu tipo!
- Ela não me parecia o tipo de garota que gosta de babacas. – Respondeu Nicholas preocupado, virando-se para o amigo. – Hei, não pense que vai fazer o que quer aqui, Will. Já está na hora de amadurecer, não acha? Chega de gracinhas, de festas e de cada dia ficar com uma menina. A faculdade está chegando e você não está aqui de graça. Seus pais confiaram em você e gastaram para você estar aqui. Então, não desperdice a chance de ser alguém e muito menos o dinheiro deles.
- Ah, sermão agora não, Nick! Você está parecendo os meus pais! Eu sei dos meus deveres! – Disse fechando a cara.
- Ótimo, só estou garantindo que você não os esqueça. – Respondeu Nicholas voltando-se para Julieta. – Mas então Juli, já decidiu o que quer fazer? Você estava indecisa...
- Na verdade não, ainda não sei se faço arquitetura, marketing ou jornalismo. – Respondeu perturbada.
- Bom, seja lá o que for fazer, vai se sair bem. – Disse ele abrindo-lhe um pequeno sorriso, mas logo voltou para falar com Willian, não lhe dando chances de agradecer. Odiava quando Nicholas fazia isso.
Qual é o problema dele? Por que ele diz essas coisas, sorri para mim e depois se vira indiferente?! No fundo ela sabia o por quê. Ele simplesmente age normal comigo. Inesperadamente, sentiu-se triste.
Depois de mais uma pequena lição de moral, mas dessa vez dada por Christian, Willian levantou-se irritado e desceu. Julieta seguiu o seu exemplo.
- É melhor começarmos a arrumar o trailer antes que comece a ficar tarde. – Disse ela olhando para os garotos, que continuavam sentados fitando-a. – Bom, estou à disposição dos senhores, quando quiserem é só me chamar. – Disse ela brava descendo.
Christian olhou incrédulo para Nicholas.
- O que deu nela?
- Não tenho idéia, mas acho melhor levantarmos para não se repetir ou até piorar. – Respondeu ele.
Depois de alguns minutos discutindo sem sucesso por onde iriam começar, Julieta começou a ficar mesmo irritada.
- Melhor arrumarmos o banheiro primeiro, é onde a situação está mais critica. – Disse Willian.
- Sim, mas o chão também está lastimável! Nojento, devemos começar por ele. – Opinou Christian.
- Olhem só todas essas coisas na mesa, precisamos esvaziá-la para podermos trabalhar melhor. – Disse Nicholas distraído com o carrinho.
- Acho melhor nós...
- Não, está louco?! Não temos onde por todas essas coisas, precisamos limpar os armários primeiro antes de guardá-las! – Willian não deixou Julieta terminar. – Ou começar pelo banheiro, como eu já havia dito...
- Eu acho que devemos primeiro v...
- Não, mas o banheiro, que é o mais difícil, devemos deixar para o final! – Interrompeu Christian como se fosse óbvio.
- Se bem que o chão...
- Vejam bem, os armários... – Começou Nicholas, mas dessa vez foi Julieta quem não o deixou terminar, subiu no estofado e gritou, assustando a todos.
- Me deixem falar, qual é o problema de vocês?! Mas que droga, vocês nunca conseguem entrar em um acordo!
Nicholas estava chocado.
- Parecem um bando de garotos de dez anos! Vão me ouvir! – Gritou nervosa. – Primeiro: vamos concertar tudo o que tiver para ser concertado na cozinha, cuba de pia, porta de armário, tudo. Depois, limparemos a cozinha, varreremos, passaremos pano no chão e nos móveis, e enfim, guardaremos os mantimentos. E se der tempo, passaremos para o quarto! A não ser que queiram dormir no posto de novo. – Disse ela olhando para cada um deles. Estavam todos pasmos e concentrados nela.
Willian virou-se discreto para Nicholas e cochichou:
- A última vez que eu vi a Julieta assim foi no primeiro colegial, quando aquela menina xingou o Chris de “viadinho”.
- Eu lembro. Ela ficou uma fera... - Concordou ele virando-se rápido para ela quando percebeu que estava escutando. Sorriu apressado. – Então Juli... Quem faz o que...?
quinta-feira, 22 de maio de 2008
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